O Homem Que Amou a Primavera – O Casamento 

5 2 votes
Article Rating
Ficha Técnica
Escrito por: Bobby Ribeiro
Revisado Por: Marina Vaz
Trilha Sonora

(Baseado no romance “Ele é Primavera”) 

Aquele de fato era o dia mais feliz da minha vida. Ora! Quantas pessoas se casam com o seu primeiro e único amor? Quantas pessoas conseguem ter o privilégio de estar cercadas por familiares e amigos que estão ali para transbordar a sua felicidade? Quando se trata de pessoas LGBTQIA+ este número seleto diminui ainda mais drasticamente.   

Era junho de 2005. Eu estava de pé naquele salão, frente a ele, o homem que eu amei desde que tinha 15 ou 16 anos de idade, não me recordo ao certo. Nós, ufa! Até que enfim posso falar nós. Quando Gabriel e eu nos conhecemos em meados de 1991, eu jamais poderia imaginar que este momento seria tão bom como está sendo agora. Contudo, mesmo com várias pessoas que eu amo aqui presentes, eu ainda sentia a falta dele.  

Meu pai. Não, ele não é o melhor pai do mundo, mas é aquele cuja a presença eu tive nos melhores e piores momentos da minha vida e, claro, vamos combinar que eu também não fui sempre um filho exemplar, mas qual filho é? Ainda assim eu o queria aqui.  

Pronto. Estava na hora, o momento que esperei desde os meus 16 nos, mas um barulho na grande porta daquele salão chamou a atenção de todos. Quando nós realmente pudemos ver a figura que adentrou o salão – era ele, o meu pai Bernard Franklin. Eu já estava apostos para ir confrontá-lo, quando meu noivo, Gabriel Shaw, olhou para mim e sorriu. Ele abriu aquele sorriso que me acalmaria até mesmo se eu tivesse meio a uma guerra. Respirei e olhei mais uma vez para – surpreso – constatar que meu pai estava sentando-se em uma das cadeiras.  

– Benjamin Franklin, você aceita Gabriel Isaac Shaw como seu marido e promete amá-lo e respeitá-lo por todos os dias de sua vida? – A juíza de paz que estava celebrando nosso casamento perguntou.  

– Sim. – Afirmei e, o que eu posso dizer a vocês é, aquele foi o sim mais convicto que eu já disse que toda minha vida. Foram anos e mais anos lutando contra esse sim para enfim poder dizê-lo em público.   

Após a juíza de paz finalmente falar as palavras mágicas: “Eu vos declaro casados”, nós fomos para a parte do salão onde seria a festa para nós e para os convidados. E tamanha foi novamente a minha surpresa quando o meu pai pediu para falar ao microfone. Novamente, junto à surpresa veio a hesitação e, mais uma vez, Shaw segurou firme em minha mão e me passou a segurança que eu precisava para ouvir o que o senhor Bernard tinha a dizer.  

– Benjamin, você sempre foi tudo o que eu sempre quis, foi jogador do time do colégio, foi estudante de medicina e agora é médico. Me ocorreu que, nesses últimos meses em que eu me obriguei a me afastar de você, eu percebi que eu nunca perguntei o que você queria. Foi sempre o que eu quis…  

–  Pai eu – Tentei interrompê-lo, para dizer que estava tudo bem, mas ele não deixou que eu o fizesse.  

– Filho, eu sei que estou velho demais para entender algumas coisas, mas não velho demais para admitir que fui e continuo sendo egoísta e antes de morrer eu gostaria de mudar esse mau hábito meu. 

Eu jamais poderia acreditar que meu pai, aquele mesmo que por tantas vezes me fez escolher entre o amor dele e o amor de Shaw estava ali falando aquilo. No entanto, somente quando me explicou, aliás explicou a todos ali como chegou a essa conclusão, foi que de fato eu realmente entendi. 

– Há mais ou menos três dias atrás eu pude conhecer alguém que há muitos anos eu vinha me recusando a conhecer. Gabriel Isaac Shaw. Ele esteve em minha casa e mesmo com todas as minhas tentativas de ofendê-lo e diminuir a pessoa que ele é, ele não desistiu… 

Leia também: O Homem Que Amou A Primavera – O Baile de Formatura

Leia também: O Homem Que Amou A Primavera – O Jogo

Três dias antes do casamento… 

– O que você está fazendo aqui? Você não é bem-vindo em minha casa, aberração. – Falei para ele. 

– O senhor já me insultou outras vezes, Bernard, mas tenha a plena ciência de que se eu estou aqui ouvindo coisas das quais eu não preciso ouvir é porque eu amo seu filho. – A petulância típica de um advogado; eu o odiava com todas as minhas forças por achar que ele havia tirado meu filho de mim. No fim das contas eu estava errado, mas naquele momento eu não iria dar meu braço a torcer.  

– Veja bem, não venha me desrespeitar dentro da minha casa seu doente…  

– Bernard, você não entendeu. Eu não vim aqui para discutir com você, também não vim pedir a sua benção e sequer vim ouvi-lo. Estou aqui pelo Benjamin e hoje depois de todo esse tempo quem vai me ouvir é você.  

Eu tentei argumentar, mas ele me interrompeu mais uma vez.  

– Eu não quero afrontar nem desmoralizar você, eu vou me casar com seu filho depois de amanhã e não há nada que você possa fazer quanto a isso. Como eu disse antes, eu não preciso de sua benção, mas eu ficaria extremamente feliz com ela. Eu não posso garantir a felicidade do seu filho pela eternidade estando ao meu lado, contudo, eu posso garantir ao senhor que amor não vai faltar a ele. Bernard, desde que conheci seu filho no pátio do New Orleans High School eu tenho amado ele.  

– Eu não quero saber desde quando você…. 

– Não, hoje você vai ouvir.  O Benjamin tem tentado e tentado viver uma vida que você escolheu pra ele. Tentou isso por 30 anos e mesmo assim ele voltou a mim e sabe por quê? Porque eu sou o lar dele. Mas Bernard, eu tenho certeza de que se você estivesse lá, o lar dele estaria mais completo, Bernard. Eu tenho certeza de que se o Ben tivesse o pai dele ao lado dele, seu sorriso seria ainda mais radiante e sua felicidade ainda mais completa. 

– Você está me pedido para aprovar essa atrocidade que você chama de amor? O Benjamin não pensou em mim quando ele envergonhou a família ao te pedir em casamento frente ao fórum municipal ao meio dia. – Cuspi as palavras diante dele. 

– Qual família, Bernard? Sua esposa está lá ajudando a gente, sua filha inclusive será nossa madrinha. Eu não estou pedindo para que você me aceite e me convide para os almoços de domingo. Eu apenas estou pedindo para que você possa ao menos dessa vez colocar a vida de seu filho à frente dos seus preconceitos, afinal o Benjamin te ama.  Não faça isso por mim, faça por você, seu filho e a sua família. Você tem dois dias para decidir que pai quer continuar sendo na vida de seu filho. 

Gabriel Shaw não esperou sequer eu respondê-lo. Ele apenas me deixou naquela sala vazia e com um forte odor de álcool. Mas realmente que tipo de pai eu fui?  

Você Já conhece a Agência BLB?

– Perdão meu filho, seu velho pai precisou quase te perder, perder a sua irmã e sua mãe só para chegar à conclusão de que nem sempre a vida que planejamos para os nossos filhos é a vida que os fazem felizes. 

Meu pai falava agora na frente de todo aquele povo tão emocionado como jamais o havia visto ficar.  

– Perdoe seu velho pai por tentar, tentar e tentar fazer você deixar de ser você e ser uma cópia minha. Perdoe seu velho pai por muitas vezes fazer sua mãe ficar contra você. Não conseguiria listar aqui todas as coisas pelas quais devo lhe pedir perdão. 

– Pai não precisa – Tentei falar com ele. 

– Deixa eu terminar, filho. Eu não vou dizer que entendo ou que compreendo tudo isso porque eu estaria mentindo. Todavia, apesar de não parecer, eu entendo de amor e filho, quanto tempo eu não o via sorrindo como eu o vi sorrindo hoje. Benjamin, eu não vou dizer que eu já estou cem por cento de acordo com isso, mas posso afirmar que eu nunca vi ninguém lhe olhar como o Gabriel te olha, desde a época do colégio. Eu estou velho, contudo, ainda não estou tão velho a ponto de não poder aprender ou mudar, com o tempo, claro. Gabriel, você me disse anteontem que não estava querendo o meu convite para os almoços de domingo lá em casa, mas veja, minha esposa, minha filha e meu filho aprenderam a conviver e a respeitar você, principalmente a relação de vocês dois. Se eles conseguiram, eu acho que também posso. Não digo que será rápido, mas os almoços de domingo ajudarão. Claro, Benjamin, se você perdoar seu velho pai! 

Eu nada disse, apenas abracei meu pai como há tempos eu estava querendo abraça-lo e sentir que ele estava ali presente me abraçando de volta. Ainda abraçado ao meu pai, eu olhei para todos surpresos no salão de festas e olhei para o meu Marido, Gabriel Shaw. Ele sorria um sorriso leve, um sorriso que ele sempre dava quando conseguia fazer algo bom. Shaw conseguiu de alguma forma amolecer meu pai e foi ali, abraçando meu pai e olhando para meu marido, que eu percebi que ele era como a primavera, ele encantava almas.  

5 2 votes
Article Rating
Choose your Reaction!
5 2 votes
Article Rating
Subscribe
Notify of
guest
2 Comentários
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments
trackback
4 meses atrás

[…] Leia também: O Homem Que Amou A Primavera – O Casamento […]

trackback
4 meses atrás

[…] Leia também: O Homem Que Amou A Primavera – O Casamento […]