O Homem que Amou a Primavera – O Baile de Formatura

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(Baseado no Romance “Ele é Primavera”)

Ficha Técnica

Escrito por: Bobby Ribeiro
Revisado por: Vika Gama
Trilha Sonora

Mesmo após as várias tentativas de alunos, professores e até mesmo do diretor do colégio de impedir que Gabriel Shaw ocupasse aquele espaço, ele conseguiu, o jovem caçula da família Shaw estava se formando. Faltavam dois dias para o grande Baile de Inverno e os preparativos estavam a todo vapor. De longe eu sempre o observava, quase sempre ele estava sorrindo, porém em raras vezes ele parecia demonstrar um certo cansaço, uma certa dor. Em um desses momentos que ele estava só e com um semblante não tão alegre eu criei coragem de me aproximar e falar com ele.  

— Oi Gabriel — disse tímido ao me aproximar dele.  

— Benjamin, tudo bem? — Ele me respondeu sem mudar o semblante, o que era estranho, pois todas as vezes que ele olhava para mim o seu rosto sempre se enchia de luz.  

— Eu estou bem, mas você não parece estar, Shaw.  

— Por favor, não! — Ele falou de maneira suplicante e eu apenas o olhei sem entender nada, pois eu realmente não fiz ou falei nada demais. 

— Não o quê? Eu não entendendo Shaw! — Falei e meu semblante confuso era visível  

— Você sempre chega assim de mansinho me chama de Shaw, depois fala que gosta de mim e que vai mudar, não vai mais ter medo e nem vergonha dos seus sentimentos por mim, mas no fim das contas você vai me deixar de mãos abanando sem você para segurá-las. Benjamin eu estou cansado disso, por favor, ao menos dessa vez, ao menos esses dois dias não faça isso comigo — O garoto em minha frente dá um longo suspiro antes de continuar — Porque Ben, se você me chamar eu vou e esqueço tudo que você me fez passar esses últimos três anos, eu vou Benjamin e passo tudo outra vez. Mas por favor, vá ser o rei do baile e me deixe ser só o Gabriel, dessa vez.  

Eu poderia abraçá-lo ali e gritar para todo o colégio ouvir que eu gostava daquele garoto que possuía o brilho da primavera nos olhos. Eu poderia encher todo o seu rosto de beijos e correr com ele de mãos dadas mandando todo mundo daquele colégio para o raio que os parta. Porém, mais uma vez eu o deixei ali com o olhar mergulhado na decepção. O que eu poderia ter feito? Eu sou o capitão do time, serei o rei do baile e tenho um futuro brilhante, como eu poderia largar tudo isso por um simples amor de colégio? No fundo eu sabia desde o primeiro momento que Gabriel não era só meu amor de colégio, ele foi quem encheu de alegria todos os meus dias no New Orleans High School, contudo naquele momento lá estava eu roubando toda a alegria do olhar dele, mais uma vez.  

Eu iria fazer dezoito anos na próxima semana e ainda não tinha vivido o suficiente para saber como é ter um amor para a vida, porém, Shaw se parecia muito com aquelas pessoas que eu assistia nos filmes ou lia sobre elas em livros de romance. Gabriel Shaw se assemelhava muito com o lar que o coração das pessoas escolhe para viver e eu sentia que talvez meu coração houvesse escolhido ele como seu lar. Antes de saber que estava perdendo-o de vista, novamente olhei para trás e ele ainda estava lá olhando eu me afastar pela, se lá, 50ª vez dele. Sei que no fundo ele queria ir atrás de mim, me sacudir e gritar que ele era a pessoa que eu gostava e que eu era covarde, mas ele não o fez, Gabriel Shaw era bom demais para isso, bom demais para mim. 

Se Gabriel não era a pessoa que gostava de pressionar, Ian, o melhor amigo dele era exatamente a pessoa que iria fazer com que eu caísse na real e deixasse de esperar que toda a minha vida passasse antes de ser feliz com Shaw. Eu sei que ele não estava fazendo aquilo por mim, afinal eu tenho plena certeza de que se ele pudesse ele me apagava da vida do melhor amigo dele, tal como a gente apaga o trecho ruim de um livro. Contudo, aquele dia no banheiro do colégio ele estava disposto a abrir meus olhos, ou finalmente dar um basta na minha participação na vida de Gabriel Shaw. 

Ian adentrou o banheiro como um furacão que sabia qual era sua missão, ele checou cada cabine daquele lugar para ter a certeza que não havia mais ninguém ali e enquanto eu o observava sem entender nada, ele pegou a gola de minha camiseta e me jogou contra a parede na medida que começou a falar… 

— Chega eu estou cansado Benjamim, já são três anos assistindo você vir encher o coração do Gabriel de esperança e como em um piscar de olhos, levar toda essa esperança para debaixo do mar mais profundo. — O garoto de pele negra falou para mim e eu pude sentir o cansaço e a decepção em cada palavra que saia da boca dele.  

— Mas Ian você não entende o que está em jogo para mim? — Questionei ele já imaginando a resposta. 

— Eu entendo sim a verdade é que eu poderia até respeitar sua decisão, mas o problema é justamente esse. Você não toma uma decisão! — Nesse momento ele me soltou — Você já se acostumou a brincar com Shaw e depois pedir desculpa com uma dúzia de violetas azuis, pois você sabe que ele te ama e vai te perdoar no seu primeiro sorriso torto.  

— Mas… — Eu estava começando a falar quando esculto um soco sendo deferido contra uma das portas de uma cabine do banheiro. 

— Não fode Benjamin, sem essa de mas…, mas meus amigos, meus pais, minha carreira, tudo é mais importante que o Gabriel. — Ian dá um longo suspiro e limpa a própria mão que estava vermelha pelo soco. — Você tem uma vida cheia de pessoas e coisas, mas nenhuma dessas pessoas ou coisas incluem meu melhor amigo. Por que você ainda tenta se aproximar dele, se nem sequer um puxadinho da sua grandiosa vida você pode dedicar a ele? 

— Eu… Eu não sei te responder isso. — Falei de cabeça baixa 

— Se você vai mentir para si mesmo eu não me importo, mas quando você for mentir para mim, pelo menos seja homem o bastante para olhar no meu rosto. — Quando eu levantei minha cabeça o encarei e fiz menção de falar alguma coisa, fui interrompido por ele novamente — Você é covarde, e por isso você nunca vai ficar com Gabriel, porque covardia é um defeito que meu amigo nunca teve, ele prefere ser xingado, levar suco na cara por três anos consecutivos e até mesmo ser espancado como ele foi do que ceder a covardia. 

As lágrimas, mesmo a contragosto começaram a cair dos meus olhos e dançarem pelo meu rosto como se estivessem eu uma grande festa. Eu sabia que cada palavra que ele havia dito era a mais dura verdade. Mas ele não tinha terminado ainda, Ian havia guardado as palavras que iriam me destruir para o final. 

— Eu conheço o Gabriel há mais de sete anos e com ele eu aprendi a ser também mais compreensivo e eu posso até mesmo entender a sua covardia, de verdade, mas por favor já chega de arrastar o meu amigo para os seus rompantes passageiros de coragem. Pode ser covarde o resto de sua vida, eu não me importo. Só não deixe mais que a sua covardia sem limites brinque com o coração dele.  

Quando o melhor amigo de Gabriel Shaw terminou de falar aquilo e saiu me deixando ali, já não havia em meu corpo mais lágrimas para chorar. Apenas fiquei ali encarando minha face no espelho  sujo do banheiro.  

Aquele era o dia marcado para o baile, o último que os alunos do terceiro ano iam participar naquele colégio antes de irem para a faculdade. Em frente a porta que dava acesso a quadra, local que seria montada a estrutura do baila, havia uma grande faixa com os seguintes dizeres: “Baile de formatura 1994, parabéns alunos”. Nos três anos em que Gabriel Shaw estudou ali muita coisa aconteceu no colégio e na vida dele. Nesse último ano o colégio havia mudado de direção após várias denúncias de irregularidades do antigo diretor. Foi ali também que Shaw conheceu o seu primeiro namorado sério, o primeiro que não teve vergonha de assumi-lo, mesmo em uma época em que o preconceito era maior que hoje.  

Por falar nele, ele estava parado frente a essa faixa e pensando em quantas coisas haviam acontecido na vida dele, quando sente alguém tapando seus olhos. A pessoa que tapara os olhos de Gabriel Shaw não disse nada, mas o menino sabia que era para ele adivinhar quem era. Shaw começou então a passar suas mãos, por cima das mãos de quem estava tapando seu rosto, quando um grande sorriso surge em sua face.  

— Não acredito! O que você está fazendo aqui Sean? — O jovem perguntou com uma felicidade genuína na voz.  

— Não é justo, como você sabe que sou eu? — O menino chamado Sean, destapa os olhos de Gabriel e o abraça enquanto indaga sobre a descoberta rápida do outro. 

Shaw encerra o abraço, mas ainda segura a mão esquerda do outro garoto. — Essa cicatriz — Gabriel Shaw passa os dedos por cima de uma cicatriz não tão discreta que havia na mão do outro rapaz, que agora estava á sua frente. — O que me lembra — ao falar isso ele deposita um beijo sob a marca. — Para você jamais esquecer o quão grato eu sou por tudo o que você fez por mim aquele dia. — Ele fala olhando nos olhos do outro garoto.  

— Você sabe que eu não me arrependo de nada e faria tudo de novo, mas eu não estou aqui para relembrar de coisas ruins. Estou aqui porque o Ian me ligou lá em Chicago e me disse que já havia uns dias que você estava triste e eu não vou deixar que você fique triste no dia da sua formatura, não mesmo! — Conclui aquele menino de pele morena, quase negra que estava ali. 

— E sua namorada? Não me diga que você deixou ela lá e veio pra cá? — Gabriel perguntou em forma de repreensão. 

— Ela está rodando o colégio, procurando a ‘moça’ de olhos castanhos brilhantes que eu disse que namorei e amei quando estudava aqui. — Sean respondeu. 

— Espera, você não disse para ela que a garota era na verdade um garoto?  

— A Dayra é um furacão ela não deixou eu terminar, na verdade ela não acredita que eu já namorei um garoto e que eu posso gostar de garotas e garotos. Então ela está doida para conhecer a tal garota.  

— Você tem uma foto dela? — Gabriel perguntou a Sean 

Sean mostrou a foto ao garoto e os dois saíram dali. 

O treinador de basquete que por acaso, também era pai de Sean, estava conversando com uma moça linda de pele negra e cabelos crespos penteados em estilo Black Power, quando Gabriel Shaw se aproximou deles. 

— Leroy, você viu o Sean? Ele disse que iria procurar a namorada dele, mas eu não o encontro mais. — Gabriel questionou o treinador enquanto olhava para a menina.  

— Não vi meu filho não Gabriel, mas a namorada dele está aqui, essa é a Dayra. — O treinador disse.  

— Muito prazer eu sou o Gabriel Shaw… — Ele foi interrompido. 

— Uma das pessoas mais incríveis que eu já conheci e pude namorar. — Sean era quem chegava naquele local e interrompia o menino que havia estendido a mão para cumprimentar a atual namorada do rapaz.  

A garota olhava do treinador para Sean e depois para Gabriel Shaw que ainda estava com a mão estendida a ela. Ela parecia buscar uma confirmação. Mas Gabriel sorriu para ela enquanto falava.  

— Quando nós namorávamos você era mais educado e não chegava nos lugares interrompendo as pessoas. — Completou de modo divertido — se me permite, prazer eu sou Shaw, o ex-namorado do seu namorado. — Shaw soltou uma gargalhada gostosa o que fez com que o clima de tensão fosse quebrado e finalmente Dayra apertou a mão dele.  

— Como Leroy disse, eu sou Dayra a atual do seu ex. — Essa foi a vez dela de sorrir.  

— Bem apresentações feitas eu preciso me organizar, pois hoje a noite eu vou supervisionar o Baile, Gabriel, Dayra e Sean, eu já conversei com Albert e vocês vão se arrumar na casa do Gabriel, pois a nossa casa está uma bagunça por causa da reforma. — Leroy concluiu antes de sair dali e deixar os meninos sós.  

— Com isso dito, vamos lá pra casa então eu tenho certeza que Ian já deve estar por lá esperando a gente. — Gabriel disse.  

— Ian é o seu atual? — Quem perguntou foi Dayra.  

— Não, o Ian é o meu melhor amigo, basicamente ele não faz nada sem mim e ele é hétero também. — Gabriel respondeu divertido e quem estava se divertindo com tudo também era Sean que tinha um sorriso no rosto. E assim eles foram se aprontar para o baile.  

Na casa de Shaw estavam Ian, Sean, Dayra e Shaw no quarto do morador da casa quando a moça pergunta: 

— Então quer dizer que depois do Sean você não teve ninguém? — Ela claramente chamou atenção de todos ali aguardando a resposta de Shaw.  

— Eu… gostei muito de uma pessoa, mas como Ian e meu irmão sempre que podem falam essa pessoa não é para mim. Então tecnicamente falando Sean foi meu primeiro e único namorado sim.  

— Nossa, pelo que o Sean fala de você eu achei que você tivesse uns mil pretendentes aos seus pés. — Ela fala descontraída.  

— Você sabe que seu namorado pode ser bem exagerado quando ele quer não é! — Os dois riem na medida que Sean protesta fazendo biquinho e recebe um beijo de Dayra.  

— Bem, agora eu vou deixar vocês, rapazes, aqui e vou lá embaixo conhecer o famoso bar, posso? — A garota dirige a pergunta a Shaw. O rapaz apenas faz que sim com a cabeça e ela sai do quarto rumo as escadas que dão acesso ao bar da família Shaw.  

Quando ela sai Gabriel olha para Sean e finge uma cara séria enquanto pergunta: 

— O que você anda falando de mim para sua namorada hein?  

Sean começa a rir e balança a cabeça negativamente antes de responder ao menino que agora se encontrava em pé à sua frente. 

— Nada demais é só que uma vez ele me perguntou se eu já havia amado alguém além dela e eu disse que havia amado a pessoa mais bela de Nova Orleans. — Sean sequer se intimida ao falar isso. Ian que assistia tudo balançava a cabeça de um lado para o outro enquanto esboçava um pequeno sorriso.  

Lá embaixo, Dayra já estava a fazer um tour pelo local do bar quando viu atrás do balcão uma pequena prateleira com algumas fotos e em uma dessas fotos Sean estava beijando o rosto de Gabriel enquanto Shaw sorria de olhos fechados. A menina parou um pouco para admirar, quando foi surpreendida por um homem que após raspar a garganta disse: 

— Eles são bonitos juntos não são? — A menina meio que se assustou e virou para trás e viu que quem havia falado com ela estava também acompanhado de uma bela mulher.  

— Você deve ser a namorada de Sean! Prazer eu sou Lilian e esse é Albert meu marido, somos os pais de Gabriel. — A mulher os apresenta sorrindo e Dayra pode ver que Gabriel tinha o belo sorriso da mãe e os olhos castanhos ele havia herdado do pai, juntamente com os traços latinos.  

— Sim, me desculpe por estar invadindo assim, mas Shaw disse que não haveria problema, eu me chamo Dayra — a garota fala um pouco sem jeito. 

— Não há problema algum. — Albert responde — vejo que gostou das fotos. — Ele completa. 

— Sim, eu ainda estou surpresa, pois quando Sean me falava que o primeiro amor da vida dele havia sido um homem, eu achava que era para eu não ter ciúmes quando ele viesse visitar o pai dele. Mas olhando essa foto aqui, parece que eles eram bem felizes. — A menina fala para os dois.  

— Sim, eles eram, mas a época deles passou, e hoje são amigos. De fato, você não precisa ter ciúmes. — Lilian falava sorrindo.  

— Não, eu não tenho! Eu vim durante todo o caminho conversando com o filho de vocês, conhecendo ele e pude entender um pouco sobre o porquê do Sean falar sobre ele ainda com tanto carinho. Posso fazer uma pergunta?  

— Claro querida! — Responde Lilian mais uma vez.  

— Talvez eu possa parecer ignorante ou preconceituosa, mas é que de onde eu venho os pais não expõem fotos dos filhos felizes com pessoas do mesmo sexo. — A garota estava muito sem jeito — Pelo visto vocês lidam diferente por aqui, não é? 

Albert sorri antes de responder a menina. — Aqui em nossa casa e no nosso bar sempre prevaleceu o respeito e nós aprendemos com o tempo que nós criamos Gabriel e Daniel para que eles tivessem a vida deles, os amores deles e as decepções deles. E nada nos enche mais de orgulho do que ver nossos filhos felizes como Gabriel estava feliz no dia dessa foto. Para nós a felicidade deve ser escancarada, pois assim ela contagia. — Concluiu o homem.  

Dayra se despede dos donos da casa com um aceno de cabeça antes de sair dali e voltar para o quarto subindo as escadas novamente sem falar nada, mas com um semblante pensativo. 

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O New Orleans High School, estava decorada de forma impecável, assim como as quatro pessoas Ian, Dayra, Gabriel e Sean que chegaram à festa de limusine. Anny esperava Ian na porta e estava vestida lindamente com um vestido que combinava com seus lindos e longos cabelos vermelhos como se fossem labaredas. Ian e Sean trajavam um smoking tradicional com peças tradicionais. Gabriel também estava quase como eles, se não fosse pela sua inconfundível gravata borboleta vinho. Anny estava concorrendo a rainha do Baile junto de Benjamin que estava concorrendo a rei. Pela primeira vez, na história do colégio os concorrentes não eram um casal.  

Eu estava conversando com James e Dave quando vi ele chegar, foi como se automaticamente o tempo parasse e todas a vozes ao meu redor sumissem. Gabriel Shaw era tão lindo e o seu sorriso especialmente aquela noite havia voltado, o sorriso que eu tanto amava, o sorriso que durante os meus famosos rompantes de coragem já citados por Ian, era direcionado a mim. O sorriso que iluminava a minha noite, mas mesmo assim eu não tive a coragem de ir até lá sequer para dizer um “oi”. James e Dave viram como eu encarava Shaw e trataram de me arrastar dali.  

A festa já estava rolando por algumas horas, jovens adultos dançando e circulando ao som de uma banda genérica que a nova diretora havia contratado. Todas as vezes que meu olhar procurava por Gabriel Shaw, eu o encontrava dançando, as vezes com uma garota negra que eu nunca havia visto no colégio, outras vezes com Ian, Anny e até mesmo com Sean que havia resolvido dar as caras ali. Ele estava cercado também por todos os demais meninos do time de basquete do qual ele já fez parte. Todos sorriam e era nítido que a alegria de Shaw era contagiante. Perto da hora de anunciar quem de fato havia ganhado a coroa de rei e rainha do baile, Ian e os meninos do time de basquete foram para perto do palco para apoiar a Anny, eu também fui para perto do palco e pude ver que Sean e a garota que eu não conhecia estavam de mãos dadas conversando com Ian. Gabriel estava meio afastado e sentado em uma cadeira, acho que ele não queria me ver de perto e eu não posso culpá-lo por isso.  

A diretora do  colégio sobe então ao palco para anunciar os vencedores.  

— Atenção formandos do NOHS de 1994! É com muito orgulho e como já era previsto que eu comunico a vocês que o Rei do Baile é Benjamin Franklin e a Rainha é Anny Lisbon. Subam aqui para pegar suas coroas e fazer o discurso de vitória. — Concluiu a diretora.  

Anny foi a primeira a discursar e ela falou da importância de se ter amigos do privilégio que ela teve de conhecer pessoas maravilhosas, ela fala isso olhando para Ian e eu busco Gabriel com olhar novamente e vejo ele de pé ao lado de James e Dave afastado do povo, mas bem no centro da quadra onde ele tinha uma visão de mim e eu podia vê-lo por completo. Quando eu pego o microfone para falar James e Dave se afastam dele o deixando só naquele local.  

— Eu só tenho a agradecer a todos, ser o rei do baile é…. — Todos já estava batendo palmas e assoviando para mim, inclusive Shaw batia palmas discretamente com um sorriso, mesmo depois de tudo ele ainda estava ali feliz por mim. — Eu quero dedicar… — não consigo concluir o que estava falando, pois, um barulho estrondoso é ouvido e uma espécie de suco vermelho cai do teto bem no local onde Gabriel estava de pé. Ele ficou todo enxercado e por um momento pareceu não acreditar no que estava acontecendo no dia de sua formatura.  

Todos ali pareciam chocados, eu olhei para um canto e vi James e Dave sorrindo vitoriosos, mais uma vez eles haviam conseguido humilhar Shaw. Gabriel Shaw mais uma vez ali na frente de todos provou o quanto ele era forte, de cabeça baixa ele deu um suspiro e logo após ergueu sua cabeça com um sorriso ainda mais aberto no rosto, olhou para Ian e Sean, que já estavam indo ao seu encontro e fez um gesto de negativo com a cabeça e os meninos paparam.  

— A noite não é minha, e eu não vou fazê-la ser sobre mim — Ele começou a falar para que todo mundo ouvisse — Hoje é sobre nós, nossa formatura e nossos sonhos, e hoje duas pessoas que eu gosto muito estão comemorando um título. Benjamin, continue seu discurso.  

Naquele momento todos se voltaram para mim novamente, Anny que estava ao meu lado falou ao meu ouvido.  

— Isso é coragem Benjamin, está na hora de deixar sua covardia de lado não acha?  

Eu suspirei fundo e levei o microfone à boca.  

Você Já conhece a Agência BLB?

— James e Dave, meus “melhores amigos” vocês estão prestes a completar dezoito anos e ainda agem como se tivessem doze. Eu tenho tanta vergonha de vocês, eu sempre achei que vocês eram bons e que tudo que vocês fizeram até aqui era algum tipo de fase ou de ciúme maluco que vocês estavam tendo. Mas não, vocês são escrotos mesmo, são egoístas a ponto de tentar estragar a festa de quem não está nem aí para a existência de vocês. São mesquinhos a ponto de estragar essa festa que estava linda para todos nós. — Eu olhei profundamente para aqueles que eu chamei de amigos desde a pré-escola e pude finalmente enxergá-los como eles sempre foram. — Mas eu estou cortando laços com vocês aqui. Não quero desculpas, pedido de perdão ou redenção, só quero distância. 

Havia chegado a hora, o momento em que eu iria fazer algo que há muito eu devia ter feito, mas aquele era o momento, a hora e lugar que foi necessário para eu aprender que covardia não gera felicidade. Eu olhei para Shaw, olhei nos olhos dele e mesmo com o cabelo molhado e as roupas enxarcadas de suco, os olhos dele brilhavam como se fossem dois faróis apontando para um cais.  

— Ontem na comissão de avaliação dos professores, você diretora me perguntou o que eu queria para minha vida e o que eu aprendi aqui no colégio. Bem, eu disse que não tinha uma resposta certa para isso, mas eu tenho. — Falava olhando para a diretora, mas no exato momento em que fui dar a resposta eu me virei para ele — Eu aprendia aqui, muito sobre matemática, ciências, biologia. Aprendi também a ser o melhor jogador de futebol americano que eu posso ser, porém, a melhor coisa que eu aprendi aqui foi a amar e esse amor me ensinou que sentimentos requerem coragem. Coragem de enfrentar xingamentos, socos, piadas de mau-gosto e até banhos de suco e refrigerante. Aprendi que o amor não combina com covardia, aprendia que para ser nós mesmos e amar quem a gente ama, é preciso ser forte. Agora eu estou olhando para quem me ensinou tudo isso, estou olhando para quem me ensinou o que de fato é o amor, ou pelo menos, no auge dos meus quase dezoito anos eu acho que é o amor. Estou olhando para a pessoa que mesmo depois de ser humilhada está olhando para mim e sorrindo. — Estendi a coroa que eu agora segurava na mão, para que a diretora pegasse antes de encerrar minha fala. — Agora eu vou descer desse palco e pegar o maior prêmio que esse colégio poderia me dar. Sobre o que eu quero para a minha vida, bem! Eu quero encher a minha vida de Gabriel Shaw, pois eu o amo.  

Todos ficaram me olhando descer e sem se importar com mais nada e o beijei. Beijei Shaw ali na frente de todos, colegas, amigos, inimigos, professores e de quem mais quisesse assistir. Ao terminar o beijo ele me convidou para sair daquele lugar e assim eu ele, Ian, Anny, Sean e a namorada dele, fomos para o bar dos pais de Gabriel, deixando um monte de alunos surpresos em um baile de formatura do qual tenho certeza que havia ficado totalmente sem graça. Naquele bar que ficava localizado no número cinquenta da Bourbon Street, Shaw e eu dançamos a noite toda.

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